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Carta ao Rei

Ah…! Com muita emoção, lembro-me do instante em que você anunciava que, de fato, viria. A alegria me envolveu em um terno abraço, mas também ouvi o sussurro do temor. Sim, confesso que temi. Temi, apesar de todos os preparativos para a sua chegada, que estes não fossem suficientes, que eu não pudesse recebê-lo como merecido. E, nessa disputa entre o tato e audição, me entreguei ao abraço.

O tempo caminhava em um ritmo desigual, hora corria em uma velocidade estonteante, hora se arrastava de maneira mordaz. Antecipei-me na decoração do aposento que imaginei ser seu por um bom tempo. Desenhei a faixa, apliquei papel de parede, cuidei de todos os detalhes na tentativa de aplacar a ânsia da espera.

E que ânsia! Sentia-me eternamente em rotação, era como ter escolhido viver 24 horas em um brinquedo de parque itinerante. Mas, assim como chegou, todo esse enjoo se foi. Meu corpo começava a se transformar quando então, ao ouvir uma música, senti você pela primeira vez.

Sei que mesmo transcrevendo aqui todo o dicionário, ainda assim não seria capaz de expressar em palavras àquela sensação, será que alguém conseguiria? Tenho lá minhas dúvidas. O importante é que a partir dali, comecei a sentir a vida.

Os meses se passaram sem que eu pudesse segurá-los, sem que pudesse assimilar cada nova sensação e, de sobressalto numa quente madrugada, empurrado pelo aperto em que já se encontrava e desejando conhecer o mundo, você iniciava sua chegada. Levei um certo tempo para sair de casa. Tomei um banho, arrumei meu cabelo, pois não poderia conhecer alguém tão especial toda desajeitada.

Foi em uma sala clara, rodeado por alguns pares de mãos certeiras que, enfim, conheci você e reconheci meu pequeno reizinho. Mãozinhas para cima, iluminadas pela luz cirúrgica, ávidas por espaço e inseguras diante do novo. Não, eu não chorei. Não tinha forças para isso, queria apenas registrar cada detalhe seu, gravar cada dobrinha e sentir sua doce e suave textura.

Como foi bom tê-lo em meus braços pela primeira vez. Esfomeado, aprendeu a mamar em um instante. E como mamava! Era e é simplesmente encantador ver a sua curiosidade por cada instante, cada detalhe, cada som…

Hoje, em cada canto dessa casa tem um pedacinho seu, tropeço nas cores da alegria que invadiram a sala, sem querer aciono com uma topada a musiquinha dalgum brinquedo. Entre bolhas de sabão, foge do banheiro um cheirinho de bebê. Há chupetas na estante, toalhinhas de boca no braço do sofá, babadores na mesa, cadeirinha no carro. Um peixe plástico e colorido repousa tranquilo em um carrinho estacionado no corredor e, da cozinha, o cadeirão sorridente, assiste calado ao ballet do vapor da panela de pressão que, espaçosa, submete todos os cômodos aos aromas das inseparáveis: mandioquinha, cenoura, carne e escarola.

Mas é no som do seu alegre balbuciar que eu me reencontro. Ganho vida novamente para cuidar de uma vida tão preciosa e passo a entender àquilo que não tem explicação, enquadrando-se em todo o sentido do sentir, incapaz de se encaixar em qualquer definição, em qualquer junção de letras, sílabas e palavras, expresso apenas em nossa longa troca de olhares.

Para meu amado filho, Arthur.

Camila Capps

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Crônica dos natais passados

Na penumbra da madrugada uma ideia me desperta. Contam-se quase quinze dias do mês de dezembro e uma certa melancolia toca-me com a leveza de uma pena, contorna em círculos as emoções jogando a mente vertiginosamente através dos anos.

Lembro-me de como costumava receber o mês de dezembro. Entravamos em férias escolares, as ruas ganhavam enfeites e tudo parecia convidar para a festa que viria no dia 24.

Minha avó começava os preparativos com muita antecedência. Ganhava leitoas, enrolava pilhas de charutos de folha de uva que dançavam borbulhosamente em imensas panelas saltitantes. Kibes eram talhados por seus dedos hábeis. Pavês povoavam sua geladeira, disputando espaço com doces de abacaxi folgados. Algumas vezes, sobrava para uma alegre gelatina colorida pacificar a disputa.

O cheiro das comidas insistia em buscar novos ares. Sorrateiramente, esquivava-se pela janela até pousar suave nas narinas dos funcionários do cartório localizado ao lado daquela grande casa.

Enquanto isso, nós varríamos os corredores das lojas de R$ 1,99 atrás de presentes impertinentes para o amigo-secreto. Valia de tudo, tanguinhas estampadas na certa corariam a face de uma tia mais velha. Sacos de adubo irritariam os mais conservadores. Xaxins iriam jazer inválidos em um canto ao fim da festa. Bacias, vasilhas, rodos, sem oferecer graça para as crianças, eram disputados pelas mães, enquanto cavalos de cabo de vassoura, descartados pelos adultos, tornariam-se a alegria das crianças.

Tenho quase certeza de que mesmo a casa, lotada de pessoas, ganhava vida naquela noite. Na cozinha, com panos amarrados na cintura e aquecidos pelo calor das chamas do fogão, encontrava-se minha avó. Nem ousávamos nos aproximar das panelas, pois ao menor sinal de movimento, éramos alertados por um sonoro “não fale em cima da comida”.

Saíamos dali às gargalhadas, cruzávamos o corredor para nos largarmos alegres no quarto de um primo. Os dedos aos poucos iam ganhando calos lapidados pelos botões dos controles do videogame. Insistíamos por mais uma partida, mas logo seríamos atraídos pela cantoria que se iniciara na sala.

Todos, desafinados, afinados ou mesmo sem noção alguma, compunham o coro. O repertório, claro, começava com as tradicionais natalinas, atingia alguma M.P.B, que ninguém sabia ao certo como começava ou terminava, visitava o coelhinho da páscoa, despedia-se do ano que ainda não terminara, sambava em marchinhas antigas, para em seu auge, saudar aquela que estava na cozinha. “Minha mãezinha querida” preenchia a sala toda até extravasar em lágrimas nos olhos de minha saudosa avó, que, disfarçando um pouco, dizia: Pareeee.

O som das vozes, aos poucos, era substituído pelo arranhar das facas e o tilintar dos copos. Conversas surgiam aqui e ali e, em algum momento, serviriam de estopim para uma discussão entre algumas tias. Nós apostávamos quem seriam as protagonistas da discussão do ano. Mas, com a mesma rapidez com que se fazia o desentendimento, risadas sonoras anunciavam quem havia sido o ganhador do bolão que tentava adivinhar a que horas um tio dormiria.

Todos os natais possuíam o mesmo roteiro e, embora algumas cenas pudessem mudar a ordem de um ano para outro, sabíamos que nada faltaria. Tínhamos a nossa “gordinha” na cozinha, a cantoria na sala, o videogame, as discussões, o tio que dormia, a farra, a alegria e a magia daquela noite.

Não sei ao certo se eu encarava o natal com o olhar de uma criança e, talvez, aí estivesse concentrada toda a maravilha que me encantava, talvez o passar dos anos torne nosso olhar mais turvo e menos sensível a estes pequenos prazeres. Só sei, e isto com toda a certeza, que nunca vou me desfazer dessas lembranças e espero proporcionar aos meus filhos, toda a magia que eu vivenciei.

Para minha saudosa vó, Nabiha

Camila Capps

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A Repartição

Aquele poderia ser mais um dia típico na repartição, salvo pelo alvoroço de pernas, pés e papéis que de um lado a outro iam desviando-se, por vezes, chocavam-se em um resmungo vago que logo tornava a se alinhar.

Portas estreitas riscadas por pequenas placas que sinalizavam o setor ao qual davam acesso, surgiam aglomeradas em um longo e escuro corredor. A tonalidade verde-musgo da parede, em alguns trechos, era vencida pelo bolor alimentado por umidade excessiva. De fato, todos os funcionários se incomodavam com o estado do lugar, mas como o mesmo não pertencia a sua alçada, daquela forma ele permaneceria.

Um som ritmado surgiu no início do corredor, era forte e cadenciado. Despertou a atenção de todos e logo se configurou em passos decididos, sorrateiramente acompanhados por mais dois pares reticentes.

As portas se abriam lentamente conforme o trio ia passando. Sussurros, olhares e gestos inundavam o pequeno espaço entre as paredes que configurava aquele local.  Diziam entre dentes:

- O que será que ela vai alegar?

- Vocês acham mesmo que ela errou? Logo ela que há tanto tempo trabalha aqui?

- Disso eu não sei. Só sei que o erro dela causou um grande problema em meu setor.

Diante da última porta pararam. Ela permanecia austera, coluna reta e em uma das mãos trazia seu objeto de trabalho. Um dos acompanhantes tentou em vão retirá-lo. Apenas um olhar bastou para que suas mãos disfarçassem a pífia investida. O outro, ignorando a ação do companheiro, adentrou a sala pedindo para que esperassem.

Mantendo seu olhar fixo na placa da porta, ela apenas respondeu ao acompanhante:

- Conheço o protocolo e, pelo que sei, isto ainda me pertence.  Segurando, com força estremada, o objeto.

A porta se abriu revelando novamente o segundo acompanhante, com a cabeça baixa sem que seus olhos pudessem fitá-la, apenas indicou o caminho a seguir:

- Ele irá recebê-la agora.

Um leve titubear fez-se presente nos movimentos daquela figura feminina, quase demonstrando fragilidade, mas logo foi contornado por nova firmeza em seus passos. Deixando para trás os que a acompanhavam até então, ultrapassou a linha da porta.

A ante-sala parecia pronta a recepcionar. Mesmo não possuindo janela ou qualquer fonte de luz natural, era extremamente clara. Não havia nenhum resquício da umidade que contaminava o lado de fora. Um tom creme se apresentava desde os rodapés até a metade das paredes para ser substituído repentinamente pela alvura inconfundível do branco. Alguns poucos bancos encontravam-se ao lado da entrada. Em uma mesa de canto, ao fundo da sala e próxima a porta que dava acesso ao setor principal, uma funcionária dissimulava entreter-se em uma atividade enfadonha, seu fingimento não era capaz de segurar o movimentar de seus olhos que, a cada segundo, percorriam vorazmente a intrigante figura.

Lentamente, a mulher percorreu todo o comprimento da ante-sala até alcançar o limite entre ela e a outra. Apenas nessa hora, sua insegurança se fez nitidamente visível. Ao entrar, a cegueira causada pelo excesso de claridade, pousou por um instante em seus olhos.

A ampla sala era inteira recoberta por um branco ainda mais alvo do que o presente na anterior. Longas prateleiras de arquivos tomavam conta das laterais do aposento. A organização soava sufocante. Uma janela cortava lado a lado a parede oposta à entrada. Não era possível ver qualquer tipo de paisagem, apenas mais claridade, mais alvura e o retornar da cegueira se instalou como um corvo a ruflar suas asas diante de seus olhos.

Seu estado torpe foi interrompido por uma voz vinda do fundo da sala. Sentado à única e imponente mesa em mogno, encontrava-se um homem de aparência gentil. Um sorriso um pouco debochado desenhava-se em seus lábios. Apontando a cadeira à frente de sua mesa disse:

- Pode deixar essa…essa…digo, seu instrumento de trabalho encostado aí no canto. Creio que não será necessário seu uso agora.

Ela sentou-se à cadeira, um pouco desconfortável, procurando o melhor lugar para largar as mãos apreensivas. O sorriso na face do homem ainda se fez presente. Inclinando seu corpo um pouco à frente e apoiando os braços sobre a mesa, ele começou:

- Minha velha companheira, devo dizer que estou um pouco frustrado de ter que te encontrar justo aqui…Gosto de nossas conversas, mas elas são bem melhores fora desta repartição.

-É, também não me agrada estar aqui…

As mãos dele folheavam uma pequena pilha de papel que escondiam, ainda que em pequena parte, o lustroso brilho da mesa. Os olhos seguiam as linhas de palavras presentes nas folhas e a boca começou a balbuciar algo que tornou-se um questionamento:

- Imagino que saiba o porquê de sentar-se a essa cadeira. Confesso que quando os relatórios chegaram fiquei perplexo, não queria acreditar em algo tão sério, vindo de uma funcionária com a sua reputação.

- Se me permite, gostaria de saber qual é a minha reputação?

- Ora, vamos, não estou te reconhecendo. Sabe muito bem que todos aqui admiramos a seriedade com que executa seu trabalho. Até a presente data, não havia nenhum registro de atraso ou descaso de sua parte.

- Sei, pois bem, esta é a minha boa reputação, sempre acatar e cumprir ordens…

A calma e amabilidade com que ele pronunciava as palavras, por um breve instante, pareciam planejar uma fuga veloz de sua expressão. A ela, a sala agora parecia menos clara. Até mesmo a luz que antes dava a impressão de irradiar diretamente da janela ganhava uma certa opacidade. Um suspiro longo aprisionou novamente a tranqüilidade ao rosto dele. Empunhando uma das folhas voltou a falar:

- Vamos aos fatos. Você trouxe onze pessoas para cá que, segundo me consta, não deveriam estar aqui. Foi algum equívoco, ordem de serviço errada ou o quê?

- Elas simplesmente queriam vir… Cruzou as pernas e com o movimento a cadeira lhe pareceu mais confortável, a confiança começou a inundar seu corpo, sentia um ímpeto de contrariá-lo. Porém, a mesma fugacidade que trouxe a emoção esvaneceu-a sob as faíscas que agora pareciam saltitar nos olhos dele.

- Perfeitamente. Entenda o problema. Se é que você ainda pode entendê-lo. Como bem sabe, existem aqui três setores para receber as pessoas que chegam. O Superior, o Meio e o Inferior. Há aqueles que vão direto para o Superior, também temos aqueles que se dirigem rapidamente para o Inferior. Há ainda, os que devem aguardar segunda ordem no Meio, para só então se dirigirem a um dos outros. Mas, até onde eu sei, ainda não temos um setor intitulado “Você Não Deveria Estar Aqui”. Ao pronunciar essas palavras, suas mãos bateram com força sobre a mesa, fazendo as folhas saltarem assustadas. Inclinou-se ainda mais, quase tocando a ponta de seu nariz ao dela. Seus olhos se encontraram, um longo e sonoro suspiro o fez voltar-se reticente a seu antigo ar de calmaria.

- Permita-me explicar. Essa boa reputação que você tanto elogia só me é particular na repartição. Fora dela, ninguém reconhece meu trabalho. Cumpro apenas ordens, como você sabe, mas sou sempre culpada por elas. Ela aproximou-se da mesa e cruzou as mãos um pouco trêmulas sobre ela.

- Não estou entendendo. Seja mais clara. Não existe culpa, apenas ordens. Cumpra-as, como sempre fez. Era quase possível vislumbrar as faíscas trepidando novamente em seu olhar.

- Olhe, é realmente muito fácil dizer isso quando todo o lado positivo pende apenas para o seu. Sua reputação é boa em todos os lugares, não apenas aqui na repartição. Todos te admiram, nunca temem. Mas eu…ow…não! Sou sempre temida, odiada…Todas os dizeres pejorativos caem sobre meu nome.

- Não floreie. Vá direto ao ponto. Ele levantou da mesa dando costas a ela. Seguiu para a janela e lá ficou, como se admirasse uma paisagem inexistente aos olhos dela.

- Ah, senhor Destino. Você sabe muito bem do que estou falando…Quando algo bom acontece, qual a frase que ouvimos? “Oh, como o Destino foi bom comigo”. Se não é tão positivo assim… “Foi o Destino quem quis”. No meu caso é bem diferente….O buraco é mais embaixo: a pessoa agonizando, a família rezando, mas seu apareço para dar uma ajudinha….“Oh, Morte como você não tem pena”… E os casamentos então…. “Até que a Morte os separe”. Que história é essa? Você sabe que a maioria deles nunca sequer começou… 

As palavras dela se aglomeravam em frases nervosas, quase não era possível compreendê-las. Ao final da sequência um tanto quanto escandalosa, ele já havia se sentado novamente à cadeira. O sorriso faceiro brincava novamente em seus lábios.

- Então é isso? Você desorganizou a repartição inteira, apenas por ciúme? E o que essas pessoas estão fazendo aqui?

Sua frase ricocheteou pela sala até atingi-la em cheio. O branco das paredes se somava na palidez excessiva do rosto dela. Não ousava mais encará-lo. Mantinha a atenção focada no chão da sala, como se o mesmo transmitisse uma mensagem muito importante a ser decifrada.

- Eu atendi a seus pedidos…

- Como assim?

- Eram umas reclamonas, qualquer coisa besta que lhes acontecia e pronto…. “a vida não vale mais a pena…” “Oh, Morte traga-me alívio”. Não é uma questão de ciúme. Estou a tanto tempo neste trabalho que gostaria de ter iniciativa própria. Acho que poderia muito bem decidir de quem é a hora.

- E como iríamos organizar as coisas se cada um que aqui trabalha, decidisse, por si próprio, que deve tomar iniciativa? O caos estaria construído. Será que sobraria mais alguém fora desta repartição?

- Mas eu tenho mais tempo de serviço que qualquer outro aqui…

- Sim eu sei, mas você só deve executá-lo e não criá-lo. Pense na responsabilidade que anda junto com ditar as regras. Até eu já me peguei pensando que seria melhor apenas obedecê-las.

Um longo silêncio se instalou, a claridade parecia dominar toda a sala novamente e ela quase pôde sentir novamente o corvo-cegueira a bicar seus olhos. Ele tamborilava os dedos sobre a mesa, um novo brilho reluzindo a pena que sentia pela velha amiga invadiu seu olhar.

- Você entende o que esta situação lhe causará?

- Sim…Uma reticência amarga escorria por sua face. Seguiu o movimento da mão dele até o telefone e ouviu com pesar as palavras que se seguiram:

- Preciso que alguém acompanhe a senhora Morte até a saída da repartição. Avise o setor de concursos que temos uma vaga em aberto para o cargo dela.

Os mesmos acompanhantes que a haviam trazido, vieram buscá-la. O caminho até a saída parecia cada vez mais longo sob os olhares curiosos que os seguiam. Lá no fundo, a sala branca se tornava apenas uma lembrança distante e ela não pôde ver o caminhar do Destino até seu antigo instrumento de trabalho.

Recostada na parede, a foice antiga apresentava um brilho sobrenatural. Cativante, inebriante, de fato, fascinante. As mãos dele deslizaram suavemente em seu cabo. Puxou-a para si, experimentou alguns movimentos no ar. Um ar de sê, pintou-se em seu rosto, borrando-se na seqüência com a entrada de outro funcionário que viera para buscar o instrumento.

 Camila Capps

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O desaparecimento de João Sebastião.

Era um sujeito magro, raquítico. Tinha uma aparência encardida. Dois olhos redondos e amendoados flutuavam vagamente nas órbitas fundas, marcadas pela saliência dos ossos da face. A barba rareava em determinados pontos para surgir em demasia em outros. Seu tom castanho avermelhado era constantemente ameaçado pelo cinza desbotado.
Não contava muitos anos, mas os anos lhe emprestavam seu peso. Andava um pouco arcado, como quem tenta contrabalancear um fardo excessivo. Porém, seus passos eram leves, sorrateiros, imperceptíveis, como poeira a dançar no colo do vento.
Entrava e saía dos lugares sem despertar atenção, sem que olhos o seguissem, sem que, se quer, notassem o movimentar da tísica figura.
As roupas brancas, amareladas pelo uso, traziam a cada dia um novo desenho, sombreado pelo sangue contido nas peças carregadas. Eram paletas, costelas, pernis. Peças quase inteiras. O cheiro o incomodava, não era algo fétido, só não sabia dizer se era mesmo forte demais, ou apenas ele, assim julgava.
O ar denso e congelante do caminhão refrigerado despertava seus ossos em um sonoro tilintar. Buscava confirmar nos olhares daqueles que o rodeavam se o som era mesmo audível a todos. Mas nenhum olhar fitava o seu, pelo contrário, o curioso ruído parecia transportá-lo a invisibilidade.
Com gosto entregava-se a essa sensação. Sentia-se livre em seu mundo único e recordava saudoso o emprego anterior, abandonado apenas por insistência da mulher em melhorar a renda familiar. Lá sim se sentia invisível por completo, acompanhado pelo silêncio da madrugada, abastecia bancas com notícias e histórias frescas.
Por mais que houvesse tentado, nos poucos anos em que frequentou a escola, era incapaz de compreender uma frase completa. Mas as letras pareciam capiturá-lo, fasciná-lo, até que, dançando em meio a elas, escorregando em suas curvas, quicando em seus símbolos, produzisse seu próprio significado. Não se importava se seu entendimento era de fato o que trazia a história, mas era capaz de perder horas e horas apenas admirando as pequenas expressões de tinta.
Ao final do dia quando chegava em casa, era sempre recebido por um sonoro:
– Diacho, João! Parece um fantasma, não avisa não. Tá se escondendo pelos cantos é? Quer me matar do coração?
Deslizava então até a velha cadeira de madeira remendada, encostada em um dos três cômodos da minúscula casa. A seu lado, encontravam-se livros resgatados de lixeiras, capazes de o abstraírem em suas páginas incompreendidas. Mal podia perceber o movimentar dos dois filhos mais velhos, zombando da inércia do pai.
Os sons da mulher, vindos da cozinha iam silenciando aos poucos. Queixas isoladas, pronunciadas aos berros retratavam-no como um peso morto, sem valor, sem vida, sem nada. Gargalhadas ridicularizavam seu ato de apreciar as páginas.
– Olha lá, o Sebastião pensa que sabe ler. Essa é boa!
Apenas a figura do filho caçula, mantinha-se muda. Em apoio, abria seu caderno escolar com os primeiros rabiscos ganhando nomes e sons, para, por fim, fazer sentido em pequenas palavras.
O menino não via graça nas tentativas de leitura do pai, ao contrário, admirava-se, empenhava-se em aprender a ler e escrever, pois acreditava que só assim conseguiria decifrar o mistério das letras que tanto o intrigavam. Entendia que esta era a chave para atingi-lo, para adentrar em seu mundo.
A rotina se seguia como em todos os demais dias. E, nessa hora, mãe e os outros filhos já haviam se cansado do deboche e sentavam-se à mesa para o jantar. O pequeno ainda se colocava ao lado dele, lutava contra os roncos do estômago que insistiam em requerer um pouco de comida, fingia não ouvir os berros da mãe clamando sua presença.
João permanecia na mesma posição e o garoto sabia que assim se estenderia por horas. Vencido pela fome, seguiu com passos cautelosos até a cozinha, como se um movimento seu pudesse retirar o homem de seu transe.
Antes de abandonar a sala, virou-se para encará-lo por mais um segundo e pode notar algo novo, surpreendente.
O pai despertou, encarava-o com um sorriso largo, seus olhos se encontraram por um breve segundo, mas ao menino pareceu uma doce eternidade. Com uma piscadela, João cumprimentou o filho e voltou subitamente sua atenção às páginas manchadas.
Alegre, o pequeno rendeu-se ao prato montado pela mãe. Comia agilmente para retornar o mais breve possível à sala. Quando conseguiu, não mais encontrou Sebastião.
Na cadeira restava apenas o livro aberto ao meio. Correu estabanado até o quarto e nem sinal do pai. Alardeava a todos os cantos que ele havia desaparecido.
A mãe e os irmãos, sem entender o que sucedia, vieram em seu socorro. Ela, repetia para si mesma:
– Era só o que me faltava! Agora o desgraçado resolveu fugir!
Saíram em busca do calado João, os vizinhos aos poucos iam engrossando a passeata, chamavam, gritavam, berravam.
Apenas o garoto, havia ficado em casa sentado na velha cadeira, segurando em seu colo o livro desbotado, como se soubesse que os chamados eram em vão. Ele não podia dizer como, mas tinha certeza de que o pai finalmente conseguira entender aquele mundo que tanto o intrigara e agora à ele pertencia.
Enxugou as lágrimas na esperança de um dia poder reencontrá-lo. E, teve a certeza, de vislumbrar nas páginas sujas e rasgadas àquela piscadela.

Camila Capps

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Entre Sombras

Tenho acompanhado este gordo senhor há algum tempo. Não é algo de que me orgulho, mas enfim, é o meu trabalho.

Acho que os últimos dias não foram muito fáceis para ele, visto que jaz estático acomodado gelidamente em suas banhas que, agora, não mais apresentam a textura de macios travesseiros, mas sim de pedras brancas disformes.

Eu estava presente no início de seu dia, ou melhor dizendo, no início de seu fim. O rádio relógio despertou em uma música que mais me lembrava um lamento gutural. Assustado, ele abriu os olhos com preguiça e em um tapa desligou-o.

Levantou cambaleante rumo ao banheiro. Não pôde perceber a minha presença e eu apenas torcia para que aquela montanha não caísse, acordando a todos como o estrondo da queda.

Imagino que esse deveria ser seu ritual diário. Escovou os dentes sem capricho e lavou o rosto, na tentativa de mandar água abaixo todas as imagens que cercavam seu cotidiano: assassinos, traficantes, drogados, assaltantes… Ah! Sim…Deixe-me explicar-lhes. Ele era ou, neste ponto, ainda é delegado.

Sei que sempre fico com o trabalho sujo, pôr fim a uma existência, mas prefiro colocar de uma maneira mais eufêmica, livro uma vida da dor, do sofrimento.

A imensa figura enxugou-se às pressas, alardeada pelo som da campainha, saiu do banheiro em uma velocidade que eu não imaginava ser capaz.

Aproximei-me lentamente, tocando suas costas com desdém.Virou-se de maneira espalhafatosa e, tenho certeza, que seus olhos puderam vislumbrar-me.

Em um minuto de pavor e ansiedade, levou as mãos ao peito e correu em direção à porta. Seguiu trôpego, nem ao menos pode perceber que pisara na encomenda deixada minutos antes pelo carteiro. De joelhos, se colocou em frente à porta do vizinho. Arfando com voracidade, deu seu último suspiro enquanto caía em um baque um tanto quanto molenga, assumindo a posição em que agora se encontra, aquela mesma que já lhes descrevi.

Ocupo um lugar privilegiado no corredor, admito que ainda trago comigo um pouco de curiosidade, quero ver o que se seguirá.

Posso ouvir passos caminhando até a porta. São leves e ritmados. A tranca velha da fechadura rasga o silêncio ao ser destravada. Os raios de luz do início da manhã se intrometem a entrar pela porta que aos poucos é aberta, brindando-me com uma visão quase divina.

Delineada por uma fina camisola – seus cabelos ondulados e pretos como deveria estar a visão do gordo a essa hora, a pele alva, que para mim exala rosas – surge o semblante mais belo que já existiu.

Ela vê o calado vizinho caído em sua soleira, seus olhos correm em torno, buscando algo por todo o corredor. Por um instante parecem se encontrar com os meus, são azuis, profundos, cristalinos como a bonança do mar. Sinto-me eufórico. Ela me viu, na certa me viu! Mas assim como pararam por um segundo, seguem secos ao constatar que não há mais ninguém no corredor.

Abaixa-se suavemente. Toca o homem com os dedos, deslizando-os lentamente até aquela boca inerte, na tentativa de sentir sua respiração. Eu, escondido em meu canto, quase posso sentir a maciez daquele toque. Como queria ser eu ali, estático.

Percebo algo mórbido em seu olhar ao notar que já não há vida no corpo, o que me deixa ainda mais instigado.

Seus traços adentram a casa, deixando apenas a camisola esvoaçante em minha memória. Sei o que vai fazer. Seguirá ao telefone para discar os números da polícia e em instantes eles estarão por aqui, em minutos descobrirão o motivo da falta sem explicações de seu delegado.

Com pesar vejo que devo partir, ainda há muito trabalho por fazer…

Pois bem, vejo que me esqueci de um detalhe. Ainda não me apresentei. Você, de fato, não me conhece pessoalmente, mas garanto que mesmo assim já tem um nome para me dar. Chame-me como achar melhor. Porém, dos muitos nomes que possuo, meu predileto é Ceifador.

Carregarei aquela bela face pelos anos a fio, até o dia em que, como o delegado, seu coração não mais agüente, ou mesmo outro arranque-lhe a vida. Nesse momento, meu toque poderá finalmente apresentar-lhe minha figura.

Camila Capps

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O Boca

Quando o Boca nasceu, nasceu assim sem mais. Deu um berro tão forte que a mãe  amedrontada e sem outra graça para lhe dar, xingou-lhe logo de Bocudo.

Era Bocudo, mas não era da Silva nem da Graça e pra não ter nome tão grande, virou apenas Boca.

Cresceu abocanhado nas barras da saia da mãe e ensurdecido pelos gritos: Boca pegue! Boca faça! Boca vá! Para bem dizer a verdade, o Boca não tinha boca para nada.

Nas ruas onde morava, conheceu um amigo, o Peçonha. Este sim era a boca que o Boca não tinha. Destilava seu veneno por onde passava, não tinha papas na língua e nem rédeas o seguravam, controlava todo o morro e por afinidade promoveu o Boca a chefe da boca.

De boca em boca a notícia se espalhou. Foi passando de bem visto para bem quisto o nosso velho Boca.

O peçonha se irritou. Como poderia o Boca estar na boca do povo? Preparou uma surpresa e esperou na boca pelo Boca.

Com um sorriso de recepção ao amigo, uma bala o Boca recebeu, mas não era nem doce nem azeda, apenas fria e sorrateira.

Nos pés da boca e na boca da noite, jazia sem dizer uma só palavra, o antigo Boca.

Camila Capps


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O quarto

Uma luz amarelada cintilava nas quatro paredes daquele aposento. Os poucos móveis ganhavam sombras de figuras engraçadas que a cada minuto transformavam-se em seus significados.

Não era um local amplo, nem tampouco acolhedor. Apenas era, seria, ou estava exatamente como ele reconhecia.

Distinguia cada mancha, cada risco, cada pontinha de sangue gravada por um pernilongo esmagado.

O silêncio insistia em se acomodar ao seu lado e a cada instante tornava-se mais espaçoso, como se tentasse tomar-lhe o ar, aprisioná-lo contra a parede.

Gostava de pensar nas coisas que poderiam estar acontecendo diante da porta, mas ao se deparar com a rachadura já camuflada pelos anos na madeira antiga, só conseguia retomar as memórias que, por ela, eram culpadas.

Toda vez que se movia, na tentativa de encontrar uma posição melhor, escutava o ranger da cama, pensava em tentar algo para amenizá-lo, mas sabia que nada faria, era apenas mais uma etapa das já conhecidas por que passaria.

Uma camada fina de poeira dançava suavemente no ar, lançada pelo ajeitar do cobertor, acentuando ainda mais o pensamento que nutria por si mesmo: por que diabos não o coloquei para tomar sol?

Sabia de cor quantas viradas seriam necessárias para que seu corpo sentisse o incômodo dos “sês”, a gargalhada triunfal do medo sobre suas derrotas. E como um fogo flamejante, o estrado podre fazia sentir-se presente através da fina camada de espuma que ainda restava no colchão.

Inspirando como quem espera o último suspiro, levantava-se em um pulo espalhafatoso. Mãos ávidas ao encontro da jarra que guardava em si um pouco de água, ainda que morna e com gosto acentuado de cloro, trazia-lhe um certo alívio, parecia lavar as emoções por um segundo e transportá-lo a um vazio reconfortante, quase capaz de brindá-lo com o tão perseguido sono.

Mas eis que o leve piscar da luz, modificava as sombras e pintava o quadro da realidade bem à frente de seus olhos.

Tentava buscar abrigo aninhando-se na poltrona tão grudada à parede oposta à cama, como se mesmo o móvel tentasse uma fuga sorrateira.

Suas mãos trêmulas coçavam os olhos tingidos por feias olheiras, deslizavam sobre os ossos da face, buscavam-se sobre o abdômen, continham-se por segundos, mas bem sabia ele o que procuravam.

Ao seu lado, jogados em uma caixa de sapato estavam alguns retratos. Momentos de sua vida imortalizados por um raio de luz. Os mais antigos molduravam sorrisos cheios de confiança e vivacidade, mas ele não conseguia encontrar o ponto crucial. Quando os risos largos foram ganhando tons amarelados, quando a vivacidade cedeu lugar à dúvida, quando as outras faces que sorriam junto, tão conhecidas, companheiras, amadas, seguiram rumo ao caminho do esquecimento.

Não chorava ao encarar as fotografias, nem conseguia reconhecer-se nelas. Sabia que aquele momento seria sempre o mesmo, como em um ritual torturante onde não há fim, apenas um recomeço.

Abandonava a poltrona com o mesmo desdém que sentia pela sua falta de atitude diante do cobertor: Como não havia escondido de si mesmo fotos que lhe cutucavam a alma?

Alguns poucos livros encontravam-se em uma prateleira improvisada ao lado da poltrona. Organizava seus títulos com um critério diferenciado. À frente estavam aqueles que havia lido, porém não era capaz de recordar o final. Ao meio estavam aqueles cujos títulos tão interessantes o haviam intrigado e por isso não tinha coragem de desfazer o mistério. Ao fundo encontravam-se os que mais o faziam sentir-se mal, todos aqueles que havia começado, mas nunca terminara.

As emoções seguiam de forma idêntica pelas noites a fio. E a essa altura provocavam um arrepio em sua espinha, que parecia transportar seu corpo a uma câmara fria. Revirava as gavetas soltas e quebradas de sua cômoda, na tentativa de encontrar algo capaz de aquecê-lo, mas no fundo sabia que apenas um tecido não poderia derreter o gélido toque da frustração. Ainda assim, resgatava lá do fundo qualquer agasalho que pudesse lhe trazer um pouco de calor.

Porém naquela noite, suas mãos não lhe presentearam com apenas um moletom, mas sim uma velha blusa de lã, que trazia no cinza desbotado um “A” bordado em azul marinho. Já nem lembrava o quanto era apegado a ela ou, melhor dizendo, ao tempo a que pertencia. Quando o ato de dormir consistia em apenas cerrar os olhos e viajar em belos e psicodélicos sonhos. Quando não havia poeira em seu cobertor, nem retratos em caixas de sapato. Quando os livros eram apenas livros e nada mais. Quando a cômoda mantinha-se intacta. Quando a vida ainda existia.

Aquele “A” o incomodava, parecia dilacerar-lhe o peito enquanto guardava em si um sorriso cínico, delineado através da tênue curvatura que unia suas retas congruentes. Não conseguia compreender o motivo de tamanha amargura. Era apenas um presente que havia ganhado há anos passados.

E então, a sombra de um inseto sobrevoando a letra o fez entender. Com um misto de tristeza, solidão e repulsa, constatou que já não podia nem ao menos reconhecer o símbolo que representava a primeira letra de seu nome.

Seu corpo estático começava a ganhar movimentos torpes, a mão ainda agarrava a blusa e teve a nítida impressão de que as paredes pareciam estreitar-se. A poltrona já não tentava a fuga, agia em apoio. Todo o quarto parecia querer pôr fim ao vácuo da inexistência que o preenchia. Apenas a janela, a qual nunca dera atenção, mantinha-se austera, impassível, quase amiga, definitivamente convidativa.

Seguiu cambaleante até seu abraço e em uma fração de segundos, a brisa do fim da noite começou a acariciar-lhe levemente o rosto, tocando seu pescoço, o peito, a cintura, até envolver-lhe todo na vertigem alucinante da queda.

Um baque surdo agiu como navalha, rasgando o silêncio. Longe daquele aposento, iluminado pelos primeiros raios de sol e na tentativa de corresponder ao escárnio do “A”, um singelo sorriso pintava-se em seus lábios. Suas pálpebras encontraram-se lentamente, sem a menor pressa.

Pôde enfim adormecer.

Camila Capps

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