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A Repartição

Aquele poderia ser mais um dia típico na repartição, salvo pelo alvoroço de pernas, pés e papéis que de um lado a outro iam desviando-se, por vezes, chocavam-se em um resmungo vago que logo tornava a se alinhar.

Portas estreitas riscadas por pequenas placas que sinalizavam o setor ao qual davam acesso, surgiam aglomeradas em um longo e escuro corredor. A tonalidade verde-musgo da parede, em alguns trechos, era vencida pelo bolor alimentado por umidade excessiva. De fato, todos os funcionários se incomodavam com o estado do lugar, mas como o mesmo não pertencia a sua alçada, daquela forma ele permaneceria.

Um som ritmado surgiu no início do corredor, era forte e cadenciado. Despertou a atenção de todos e logo se configurou em passos decididos, sorrateiramente acompanhados por mais dois pares reticentes.

As portas se abriam lentamente conforme o trio ia passando. Sussurros, olhares e gestos inundavam o pequeno espaço entre as paredes que configurava aquele local.  Diziam entre dentes:

– O que será que ela vai alegar?

– Vocês acham mesmo que ela errou? Logo ela que há tanto tempo trabalha aqui?

– Disso eu não sei. Só sei que o erro dela causou um grande problema em meu setor.

Diante da última porta pararam. Ela permanecia austera, coluna reta e em uma das mãos trazia seu objeto de trabalho. Um dos acompanhantes tentou em vão retirá-lo. Apenas um olhar bastou para que suas mãos disfarçassem a pífia investida. O outro, ignorando a ação do companheiro, adentrou a sala pedindo para que esperassem.

Mantendo seu olhar fixo na placa da porta, ela apenas respondeu ao acompanhante:

– Conheço o protocolo e, pelo que sei, isto ainda me pertence.  Segurando, com força estremada, o objeto.

A porta se abriu revelando novamente o segundo acompanhante, com a cabeça baixa sem que seus olhos pudessem fitá-la, apenas indicou o caminho a seguir:

– Ele irá recebê-la agora.

Um leve titubear fez-se presente nos movimentos daquela figura feminina, quase demonstrando fragilidade, mas logo foi contornado por nova firmeza em seus passos. Deixando para trás os que a acompanhavam até então, ultrapassou a linha da porta.

A ante-sala parecia pronta a recepcionar. Mesmo não possuindo janela ou qualquer fonte de luz natural, era extremamente clara. Não havia nenhum resquício da umidade que contaminava o lado de fora. Um tom creme se apresentava desde os rodapés até a metade das paredes para ser substituído repentinamente pela alvura inconfundível do branco. Alguns poucos bancos encontravam-se ao lado da entrada. Em uma mesa de canto, ao fundo da sala e próxima a porta que dava acesso ao setor principal, uma funcionária dissimulava entreter-se em uma atividade enfadonha, seu fingimento não era capaz de segurar o movimentar de seus olhos que, a cada segundo, percorriam vorazmente a intrigante figura.

Lentamente, a mulher percorreu todo o comprimento da ante-sala até alcançar o limite entre ela e a outra. Apenas nessa hora, sua insegurança se fez nitidamente visível. Ao entrar, a cegueira causada pelo excesso de claridade, pousou por um instante em seus olhos.

A ampla sala era inteira recoberta por um branco ainda mais alvo do que o presente na anterior. Longas prateleiras de arquivos tomavam conta das laterais do aposento. A organização soava sufocante. Uma janela cortava lado a lado a parede oposta à entrada. Não era possível ver qualquer tipo de paisagem, apenas mais claridade, mais alvura e o retornar da cegueira se instalou como um corvo a ruflar suas asas diante de seus olhos.

Seu estado torpe foi interrompido por uma voz vinda do fundo da sala. Sentado à única e imponente mesa em mogno, encontrava-se um homem de aparência gentil. Um sorriso um pouco debochado desenhava-se em seus lábios. Apontando a cadeira à frente de sua mesa disse:

Pode deixar essa…essa…digo, seu instrumento de trabalho encostado aí no canto. Creio que não será necessário seu uso agora.

Ela sentou-se à cadeira, um pouco desconfortável, procurando o melhor lugar para largar as mãos apreensivas. O sorriso na face do homem ainda se fez presente. Inclinando seu corpo um pouco à frente e apoiando os braços sobre a mesa, ele começou:

– Minha velha companheira, devo dizer que estou um pouco frustrado de ter que te encontrar justo aqui…Gosto de nossas conversas, mas elas são bem melhores fora desta repartição.

-É, também não me agrada estar aqui…

As mãos dele folheavam uma pequena pilha de papel que escondiam, ainda que em pequena parte, o lustroso brilho da mesa. Os olhos seguiam as linhas de palavras presentes nas folhas e a boca começou a balbuciar algo que tornou-se um questionamento:

– Imagino que saiba o porquê de sentar-se a essa cadeira. Confesso que quando os relatórios chegaram fiquei perplexo, não queria acreditar em algo tão sério, vindo de uma funcionária com a sua reputação.

– Se me permite, gostaria de saber qual é a minha reputação?

– Ora, vamos, não estou te reconhecendo. Sabe muito bem que todos aqui admiramos a seriedade com que executa seu trabalho. Até a presente data, não havia nenhum registro de atraso ou descaso de sua parte.

– Sei, pois bem, esta é a minha boa reputação, sempre acatar e cumprir ordens…

A calma e amabilidade com que ele pronunciava as palavras, por um breve instante, pareciam planejar uma fuga veloz de sua expressão. A ela, a sala agora parecia menos clara. Até mesmo a luz que antes dava a impressão de irradiar diretamente da janela ganhava uma certa opacidade. Um suspiro longo aprisionou novamente a tranqüilidade ao rosto dele. Empunhando uma das folhas voltou a falar:

Vamos aos fatos. Você trouxe onze pessoas para cá que, segundo me consta, não deveriam estar aqui. Foi algum equívoco, ordem de serviço errada ou o quê?

– Elas simplesmente queriam vir… Cruzou as pernas e com o movimento a cadeira lhe pareceu mais confortável, a confiança começou a inundar seu corpo, sentia um ímpeto de contrariá-lo. Porém, a mesma fugacidade que trouxe a emoção esvaneceu-a sob as faíscas que agora pareciam saltitar nos olhos dele.

Perfeitamente. Entenda o problema. Se é que você ainda pode entendê-lo. Como bem sabe, existem aqui três setores para receber as pessoas que chegam. O Superior, o Meio e o Inferior. Há aqueles que vão direto para o Superior, também temos aqueles que se dirigem rapidamente para o Inferior. Há ainda, os que devem aguardar segunda ordem no Meio, para só então se dirigirem a um dos outros. Mas, até onde eu sei, ainda não temos um setor intitulado “Você Não Deveria Estar Aqui”. Ao pronunciar essas palavras, suas mãos bateram com força sobre a mesa, fazendo as folhas saltarem assustadas. Inclinou-se ainda mais, quase tocando a ponta de seu nariz ao dela. Seus olhos se encontraram, um longo e sonoro suspiro o fez voltar-se reticente a seu antigo ar de calmaria.

– Permita-me explicar. Essa boa reputação que você tanto elogia só me é particular na repartição. Fora dela, ninguém reconhece meu trabalho. Cumpro apenas ordens, como você sabe, mas sou sempre culpada por elas. Ela aproximou-se da mesa e cruzou as mãos um pouco trêmulas sobre ela.

– Não estou entendendo. Seja mais clara. Não existe culpa, apenas ordens. Cumpra-as, como sempre fez. Era quase possível vislumbrar as faíscas trepidando novamente em seu olhar.

– Olhe, é realmente muito fácil dizer isso quando todo o lado positivo pende apenas para o seu. Sua reputação é boa em todos os lugares, não apenas aqui na repartição. Todos te admiram, nunca temem. Mas eu…ow…não! Sou sempre temida, odiada…Todas os dizeres pejorativos caem sobre meu nome.

– Não floreie. Vá direto ao ponto. Ele levantou da mesa dando costas a ela. Seguiu para a janela e lá ficou, como se admirasse uma paisagem inexistente aos olhos dela.

Ah, senhor Destino. Você sabe muito bem do que estou falando…Quando algo bom acontece, qual a frase que ouvimos? “Oh, como o Destino foi bom comigo”. Se não é tão positivo assim… “Foi o Destino quem quis”. No meu caso é bem diferente….O buraco é mais embaixo: a pessoa agonizando, a família rezando, mas seu apareço para dar uma ajudinha….“Oh, Morte como você não tem pena”… E os casamentos então…. “Até que a Morte os separe”. Que história é essa? Você sabe que a maioria deles nunca sequer começou… 

As palavras dela se aglomeravam em frases nervosas, quase não era possível compreendê-las. Ao final da sequência um tanto quanto escandalosa, ele já havia se sentado novamente à cadeira. O sorriso faceiro brincava novamente em seus lábios.

Então é isso? Você desorganizou a repartição inteira, apenas por ciúme? E o que essas pessoas estão fazendo aqui?

Sua frase ricocheteou pela sala até atingi-la em cheio. O branco das paredes se somava na palidez excessiva do rosto dela. Não ousava mais encará-lo. Mantinha a atenção focada no chão da sala, como se o mesmo transmitisse uma mensagem muito importante a ser decifrada.

– Eu atendi a seus pedidos…

– Como assim?

– Eram umas reclamonas, qualquer coisa besta que lhes acontecia e pronto…. “a vida não vale mais a pena…” “Oh, Morte traga-me alívio”. Não é uma questão de ciúme. Estou a tanto tempo neste trabalho que gostaria de ter iniciativa própria. Acho que poderia muito bem decidir de quem é a hora.

– E como iríamos organizar as coisas se cada um que aqui trabalha, decidisse, por si próprio, que deve tomar iniciativa? O caos estaria construído. Será que sobraria mais alguém fora desta repartição?

– Mas eu tenho mais tempo de serviço que qualquer outro aqui…

– Sim eu sei, mas você só deve executá-lo e não criá-lo. Pense na responsabilidade que anda junto com ditar as regras. Até eu já me peguei pensando que seria melhor apenas obedecê-las.

Um longo silêncio se instalou, a claridade parecia dominar toda a sala novamente e ela quase pôde sentir novamente o corvo-cegueira a bicar seus olhos. Ele tamborilava os dedos sobre a mesa, um novo brilho reluzindo a pena que sentia pela velha amiga invadiu seu olhar.

– Você entende o que esta situação lhe causará?

– Sim…Uma reticência amarga escorria por sua face. Seguiu o movimento da mão dele até o telefone e ouviu com pesar as palavras que se seguiram:

– Preciso que alguém acompanhe a senhora Morte até a saída da repartição. Avise o setor de concursos que temos uma vaga em aberto para o cargo dela.

Os mesmos acompanhantes que a haviam trazido, vieram buscá-la. O caminho até a saída parecia cada vez mais longo sob os olhares curiosos que os seguiam. Lá no fundo, a sala branca se tornava apenas uma lembrança distante e ela não pôde ver o caminhar do Destino até seu antigo instrumento de trabalho.

Recostada na parede, a foice antiga apresentava um brilho sobrenatural. Cativante, inebriante, de fato, fascinante. As mãos dele deslizaram suavemente em seu cabo. Puxou-a para si, experimentou alguns movimentos no ar. Um ar de sê, pintou-se em seu rosto, borrando-se na seqüência com a entrada de outro funcionário que viera para buscar o instrumento.

 Camila Capps

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6 comentários em “A Repartição

  1. Oi Camila já falei que sou sua fã? Nossa Parabéns, os contos são muito bem escritos sempre com ar de mistério que nos deixa sedentos para continuar lendo, uma leitura gostosa, leve que consegue prender a atenção. Parabéns por mais esse!!

  2. Muito legal filha, surpreendente.

  3. Bacana, de forma clara e leve com o obscuro traçando uma límpida luz de que sabe o que escreve.
    Muito bom.

  4. ..Muito bom!!!ETC…
    …Parabens..!!!….

  5. Olá Camila, boa tarde. O dia em que a morte decidiu viver. Só foi pena que alguns
    tenham pago por isso. Irei certamente tomar mais cuidado quando fizer um pedido
    interior, será bom tomar cuidado com o que se deseja. Fantástico, muitos parabéns.
    Bom fim de semana.

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