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Divagações Osculares.

Certa vez, em uma de minhas caminhadas rotineiras, um questionamento fez morada em minha mente:

– Você sabe beijar? Como se beija?

Isso mesmo, uma pergunta trivial, que poderia soar boba alcançou meus tímpanos. Se é que posso dizer assim. De fato, sempre apresentei curiosidade pela vida alheia e, embora parecesse caminhar distraída, debruçava minha capacidade auditiva em histórias paralelas, estranhas, confidenciais…. Porém, essa pergunta, posso dizer, causou-me um certo alvoroço.

Sua fonte era inocente. Jovens adolescentes conversavam sobre as descobertas da vida afetiva e eu, afoita em minhas tarefas diárias, pesquei a tal pergunta daquela cândida conversa.

Mas o que de fato ela significava? O que quer dizer saber beijar? Como se explica o beijo? O que…?

Tentei recorrer a tempos antigos, quando ainda morava em mim a mesma dúvida, mas as primaveras acumuladas impediam o acesso a tão remota data. Só restava-me refletir sob a luz da experiência o que era beijar.

E eis que a resposta fluiu tal qual correnteza de rio caudaloso:

– Junção de lábios, salivas e línguas. Esta definição feriu-me como a fria e alva folha que contém a necropsia de cada palavra jazendo inerte no dicionário.

– Não!!! Não pode ser apenas isto. Recusei-me a aceita-la.

Residirá a resposta na garrafa de Vodka plácida nos bares das baladas ou, um pouco mais vulgar, gaseificada nas borbulhas das garrafas de cervejas geladas, que dançam felizes em mesas de bares? Mas o que levam elas senão ao frio juntar de lábios, ao vago toque de corpos que, de fato, nem presentes se encontram?

O que é beijar? Como é beijar? Ah…!!! Quanto tormento essas perguntas infantis trouxeram-me!

– Não sei!! Pronto!! Admito! – Feito o louco que divaga sozinho pelas ruas, gritei.

Não podia descrever a sensação pois não sabia como era beijar alguém a quem as palavras já tocaram tão intimamente, alguém a quem os olhos já exploraram tão minuciosamente, alguém a quem permitiu-se o vislumbre e toque de almas antes mesmo do roçar de lábios.

E então, uma simples questão infantil derrubou-me na mais aberta constatação:

– Realmente não sei o que é beijar. Muito menos como se deve fazê-lo!

E ainda me atrevo a questionar:

– Nos dias atuais, alguém o sabe?

Camila Capps

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2 comentários em “Divagações Osculares.

  1. Gostei da homenagem, bem no dia do meu aniversário. Muito grato.

  2. Muito legal.

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