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Miniconto – Resposta

 Era um daqueles dias em que você nada vê adiante. Apenas o tormentoso borrão da incerteza brinca de adivinhar o futuro, rodopia nas voltas da vida, até escorrer melancolicamente sobre os sonhos. Você pisca, esfrega, lava os olhos, mas ele é insistente e o vence pelo cansaço.

 Cansaço! Era exatamente isso o que eu sentia… Fadiga de enfrentar o eterno recomeço. Sentia-me como preso em uma lama, quanto mais me mexia, mais ela me abraçava com seu carinho quente, devastador, sufocante…

 O tormento arcava meus ombros, já não tinha forças para caminhar. Tudo havia dado errado, todas as tentativas jogadas em vão. O passado, visto do presente, mais lembrava uma obra de Dante, sua paisagem era tão árida que só convocava ao grito. O futuro, não podia vê-lo, parecia-me uma adaptação grotesca de Dalí, tudo se misturava retorcidamente.

 Estava preso, sem possibilidade ou saídas. Era isso! Era o fim!

 Fui ao chão, paralisado pela impossibilidade de escolha. Estático. Braços para cima. Lágrimas gotejavam do vazio dos meus olhos. E perguntei. Não como quem espera uma resposta, pois não sabia nem a quem questionava, mas como uma reação fisiológica de um corpo que precisa vomitar seus lamentos:

 – Como posso passar por tudo isso? Logo eu, que mais desprezei e tive asco desse tipo de situação? Eu, que nunca fui capaz de ferir ninguém?  Eu, que daria meu sangue pra defender meus princípios? Eu…, eu…, eu?

 Abaixei as mãos e admirei com uma certa melancolia irônica minha sombra ao chão. A auto piedade havia me colocado em uma situação um tanto quanto ridícula. Soltei um riso salgado pelas lágrimas que desencadeou em uma gargalhada desesperada, silenciada abruptamente por um sonoro:

 – Shiiiiiiiiiii. Cale a boca! – Soava como uma voz daquelas senhoras já abatidas pelos anos, embriagadas pelo vinho e roucas pelo uso excessivo do tabaco. Congelei de imediato acreditando que havia finalmente aberto a porta à insanidade.

 – Não, não está ficando louco! – respondeu a voz a meu pensamento – Agora cale-se e apenas escute. Tentarei responder ao que tanto me amola para saber.

 – Não me chamo justiça, atendo apenas pelo nome de Vida. Tema uma situação, tenha nojo dela e será justamente por ela que seus pés trilharão. Carregue a bandeira da verdade, lute por ela e a mentira cortejará seu sorriso, a falsidade oferecerá abrigo e a traição derrubará seu castelo. Esse não é apenas o seu caminho, é o caminho de muitos, de todos que optaram por não sorrir de volta, não se abrigar e reconstruir-se a partir das cinzas.

 Assim como surgiu, a “Voz Sarcástica da Vida”” – parece-me um bom nome para defini-la – desapareceu do nada em meio aos sons do dia, deixando-me sem respostas e, na certa, amedrontado.

 Levantei-me, limpei os joelhos e lá estava apenas o som da água fervendo. Quem sabe um café seria capaz de derrotar meu cansaço.

 Não tinha e ainda não tenho um caminho a seguir. Procurei respostas e não as encontrei. Mas trago uma certeza: ainda que meus gritos estraçalhem meu peito, os trancarei no silêncio do meu ser, pois espero nunca mais ouvir àquela fria e dilacerante voz.

Camila Capps

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Um comentário em “Miniconto – Resposta

  1. Muito bonito.

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