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Gioconda

                Certo dia, enquanto caminhava com a pressa de quem não sabe ao certo qual será seu destino, algo inusitado me ocorreu.

                Era um daqueles dias mornos, parados, um tanto quanto cinzentos… Daqueles que te fazem mergulhar em pensamentos filosóficos, questionadores, chatos, tediosos e te jogam na cara toda sua inútil existência. Bom, pelo menos assim agora ele me parece. Não descarto a possibilidade da pena do mau humor ter pousado silenciosa sobre minha lembrança, mas acho que isso não vem ao caso.

                Os invernos já começavam a vitrificar minhas retinas, já não possuía a vitalidade de outrora. A barriga saliente tentava em vão camuflar-se sob a camisa amarrotada, e, no seu desespero por esconder-se, nada mais fazia do que denunciar meu apreço pela calada e companheira cevada.

                Alguns fios de cabelo, isolados e bisonhos, habitavam o topo de minha cabeça. Pareciam guardar luto por aqueles que insistiam em suicidar-se diariamente, ávidos pela liberdade de não pertencerem a ninguém, sedentos pela distância de meus insossos pensamentos.  Porém, ainda assim trabalhava. E como trabalhava!

                Saltei – não, acho que esse não era bem o termo. Desci – também não! Melhor dizer que me arrastei para fora do ônibus. Uma bolsa pesada pendia para a direita, era preta, um tanto quanto surrada e recheada de projetos. A gravata parecia-me uma coleira, ou, melhor dizendo, uma forca a espera de quem chutasse o banco. E eu suava, suaVA, SUAVA… Já disse que era um dia quente?

                A sinfonia urbana era composta pela percussão de saltos, sapatos e sapatilhas. Pulseiras, relógios e colares prestavam-lhe acompanhamento em seus ruidosos tilintares. Olhares se encontravam e dispersavam-se sem a obrigação de rasgar na face um mero sorriso. Confesso que sempre fui meio avesso a multidões, mas agora penso que elas são de fato acolhedoras. Abraçados a elas, não precisamos ser nada além de mais um…

                Uma bicicleta desgovernada buzinou enlouquecida, seu som destoava dos outros e quase fui ao chão quando tentava atravessar um cruzamento… Enquanto me recuperava, proferi todos os xingamentos que conhecia e mais alguns que, até hoje, não tenho certeza de suas existências. É claro que eles nãos ficaram solteiros no ar, pois adquiriram matrimônio com os que saltavam da boca do ciclista e valsaram inconvenientes, folgados e ríspidos até se espatifarem em faces de desaprovação.

                Disfarcei um pouco, mas logo continuei com minha jornada. Não devia nada àqueles olhares inquisidores, afinal EU quase me estatelei no chão, não eles. A minha vida dizia respeito a mim apenas, não?!  Acordar todos os dias com o peso da incerteza das escolhas, sentir os anos escorrendo como a areia faceira da ampulheta, não ter ninguém com quem dividir meu papo rançoso e cheirando à naftalina ao final do dia… Ahh! Que olhassem feio, o problema era deles, não meu.

                Cerca de dois quarteirões me separavam do meu ponto final. Eu conhecia o caminho assim como as velhas calças de moletom conhecem cada centímetro de nosso corpo, mas decidi pegar um atalho, ou assim me parecia. É impressionante como as ruas do centro estão sempre lotadas, era gente que não acabava mais e eu ensaiado a apresentação do meu projeto mentalmente.

                Virei mais uma esquina; foquei meu olhar em meus sapatos; estavam desgastados; precisava trocá-los; os valores são os melhores do mercado; tem uma mancha na minha manga; posso dar as melhores garantias… De súbito, percebi que apenas meus questionamentos batucavam em minha mente, todos os outros sons haviam aberto as portas para o silêncio.

                Desgrudei meus olhos dos calçados. Na rua estreita não havia uma alma viva. O ar continuava morno, mas parecia adquirir certa densidade. Tive a impressão de que poderia cortá-lo, dividi-lo em diversas partes e segurar cada uma delas separadamente. Meus batimentos se aceleraram. Eu queria correr, mas as pernas não respondiam. Queria gritar, mas tinha a sensação de que minha boca havia sido costurada pela antiga máquina de minha avó. Nunca pensei que o caos urbano pudesse fazer tanta falta.

                Esgueirei-me com a velocidade alucinante de uma lesma até a fachada de um pequeno café. Procurei abrigo entre as mesas e cadeiras vazias. O pavor cerrava os braços em meu corpo, e por mais que eu buscasse o ar com a ânsia de um recém-nascido, a cada inspirada, seus laços tornavam-se mais estreitos. Imaginei que aquele fosse o abraço da morte, estava convencido de que aquilo seria morrer… Mas por que morrer sozinho? Nem mesmo na hora da morte seria agraciado com um olhar de compaixão? Ou até o nojo seria melhor do que nada além do vazio, do concreto, da minha solidão.

                Fechei os olhos resignado. Preferia optar por mirar o escuro vácuo da imaginação à rua solitária. Pelo menos essa escolha me restaria em meu derradeiro momento. E, então, ouvi ao fundo, bem distante, um som ritmado. Senti o peso do ar se dissipar, as amarras soltarem meu peito e recobrei a coordenação dos movimentos.

                Lá, na outra ponta da rua, surgiu uma figura. Era um homem, um jovem. Terno bem recortado, postura alinhada, cabelos elegantemente desgrenhados e vastos. Seus passos eram confiantes, ágeis, quase sincronizados. Mesmo daquela distância pude perceber que trajava um sorriso. Um sorriso largo, desenhado, branco e irritante. Procurei uma mesa mais escondida, não sabia se ele podia me ver, mas eu definitivamente não queria ser avistado.

                A rua não parecia ser tão comprida, mas os instantes que nos separavam eram deveras longos. E aquele sorriso me incomodava, me feria, me dilacerava. A certeza contida naquele caminhar parecia zombar da minha mediocridade. O corpo esguio escrevia no ar comparações jocosas às minhas formas redondas e flácidas.  E o maldito sorriso.

                Inspirei fundo e segurei o ar quando a distância não mais me permitia um esconderijo. Por um instante acreditei que tal atitude poderia me fazer invisível. Engano meu. Eu quase havia me tornado parte da parede do café, e aqueles dentes desfilavam altivos pelo centro da rua. Nossos olhares se cruzaram. Os meus emoldurados por sulcos, bolsas, manchas e indecisões. Os dele abrigavam brilho, inquietude, uma certa ingenuidade e um ar de petulância… O cumprimento durou poucos segundos, mas penetrou em minha alma e cortou cada centímetro do meu corpo como uma fria navalha. Eu conhecia aqueles olhos.

                Pior, eu conhecia aquele sorriso! Há muitos anos costumava encarar esses olhos e cada detalhe daqueles dentes… Era um ritual que eu fazia diante do espelho, antes de passar a toalha úmida e sair para ganhar o mundo. Não sei se consegui retribuir o cumprimento, acho que apenas me afundei ainda mais na parede. Ele não me reconheceu. Também, não poderia. Continuou seu passo, como quem ultrapassasse uma barata morta. E lá estava eu, olhando minha jovem silhueta partir.

                Um suspiro profundo pareceu inflar meus pulmões com algo mais do que ar. Eu detinha o poder. Sabia exatamente tudo o que aconteceria àquela figura a partir dali. Sabia que toda a postura tinha dias certos para ruir. Eu só…Sabia. Pensei em correr, abordá-lo, explicar, sugerir, instruir… Pensei, mas não o fiz. Até cheguei a dar meu primeiro passo em direção a ele, mas o medo de que tal atitude me fizesse desaparecer paralisou minhas pernas. Na sequência, ri de mim mesmo: seria o passado assim tão potente que uma interferência poderia acarretar na inexistência do futuro? Entendi que não, eu ainda existiria, talvez menos amargo, mas ainda seria EU.

                Confiante, comecei a projetar meu segundo passo. A figura já alcançava o final da rua. Mas a lembrança daquele sorriso me deteve. A arrogância confiante daquela arcada dentária parecia acenar para mim, mesmo escondida pela vasta cabeleira que adormecia aconchegada à nuca. O triunfo de saber que em breve o riso estaria desfeito, esquálido, esfarrapado pelas situações adversas vindouras, fez cócegas nos cantos de meus lábios e com uma feição a lá Gioconda segui meu caminho rumo ao lado oposto da rua.

Camila Capps

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7 comentários em “Gioconda

  1. Como pode uma menininha , tão pequenina, tão criança ainda, escrever como uma pessoa com tanta mais experiência de vida.
    Maravilhoso, Camila

  2. Muito obrigada pelos comentários, pessoal!
    Beijos.

  3. Muito legal Camila! Parabéns!

  4. Lindo texto…delícia de ler

  5. Fantástico. Quantas vezes me vi nessa situação!!! Beijos

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