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Crônica dos natais passados

Na penumbra da madrugada uma ideia me desperta. Contam-se quase quinze dias do mês de dezembro e uma certa melancolia toca-me com a leveza de uma pena, contorna em círculos as emoções jogando a mente vertiginosamente através dos anos.

Lembro-me de como costumava receber o mês de dezembro. Entravamos em férias escolares, as ruas ganhavam enfeites e tudo parecia convidar para a festa que viria no dia 24.

Minha avó começava os preparativos com muita antecedência. Ganhava leitoas, enrolava pilhas de charutos de folha de uva que dançavam borbulhosamente em imensas panelas saltitantes. Kibes eram talhados por seus dedos hábeis. Pavês povoavam sua geladeira, disputando espaço com doces de abacaxi folgados. Algumas vezes, sobrava para uma alegre gelatina colorida pacificar a disputa.

O cheiro das comidas insistia em buscar novos ares. Sorrateiramente, esquivava-se pela janela até pousar suave nas narinas dos funcionários do cartório localizado ao lado daquela grande casa.

Enquanto isso, nós varríamos os corredores das lojas de R$ 1,99 atrás de presentes impertinentes para o amigo-secreto. Valia de tudo, tanguinhas estampadas na certa corariam a face de uma tia mais velha. Sacos de adubo irritariam os mais conservadores. Xaxins iriam jazer inválidos em um canto ao fim da festa. Bacias, vasilhas, rodos, sem oferecer graça para as crianças, eram disputados pelas mães, enquanto cavalos de cabo de vassoura, descartados pelos adultos, tornariam-se a alegria das crianças.

Tenho quase certeza de que mesmo a casa, lotada de pessoas, ganhava vida naquela noite. Na cozinha, com panos amarrados na cintura e aquecidos pelo calor das chamas do fogão, encontrava-se minha avó. Nem ousávamos nos aproximar das panelas, pois ao menor sinal de movimento, éramos alertados por um sonoro “não fale em cima da comida”.

Saíamos dali às gargalhadas, cruzávamos o corredor para nos largarmos alegres no quarto de um primo. Os dedos aos poucos iam ganhando calos lapidados pelos botões dos controles do videogame. Insistíamos por mais uma partida, mas logo seríamos atraídos pela cantoria que se iniciara na sala.

Todos, desafinados, afinados ou mesmo sem noção alguma, compunham o coro. O repertório, claro, começava com as tradicionais natalinas, atingia alguma M.P.B, que ninguém sabia ao certo como começava ou terminava, visitava o coelhinho da páscoa, despedia-se do ano que ainda não terminara, sambava em marchinhas antigas, para em seu auge, saudar aquela que estava na cozinha. “Minha mãezinha querida” preenchia a sala toda até extravasar em lágrimas nos olhos de minha saudosa avó, que, disfarçando um pouco, dizia: Pareeee.

O som das vozes, aos poucos, era substituído pelo arranhar das facas e o tilintar dos copos. Conversas surgiam aqui e ali e, em algum momento, serviriam de estopim para uma discussão entre algumas tias. Nós apostávamos quem seriam as protagonistas da discussão do ano. Mas, com a mesma rapidez com que se fazia o desentendimento, risadas sonoras anunciavam quem havia sido o ganhador do bolão que tentava adivinhar a que horas um tio dormiria.

Todos os natais possuíam o mesmo roteiro e, embora algumas cenas pudessem mudar a ordem de um ano para outro, sabíamos que nada faltaria. Tínhamos a nossa “gordinha” na cozinha, a cantoria na sala, o videogame, as discussões, o tio que dormia, a farra, a alegria e a magia daquela noite.

Não sei ao certo se eu encarava o natal com o olhar de uma criança e, talvez, aí estivesse concentrada toda a maravilha que me encantava, talvez o passar dos anos torne nosso olhar mais turvo e menos sensível a estes pequenos prazeres. Só sei, e isto com toda a certeza, que nunca vou me desfazer dessas lembranças e espero proporcionar aos meus filhos, toda a magia que eu vivenciei.

Para minha saudosa vó, Nabiha

Camila Capps

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6 comentários em “Crônica dos natais passados

  1. Meus queridos!!! Muito obrigada pelos comentários.
    Esse foi, definitivamente, um daqueles textos teimosos, insistentes, daqueles que não nos permitem o sono, até que tenhamos colocado todas as suas palavras para fora. Um pouco de toda a alegria e, principalmente, a saudades que nos invade quando lembramos dos natais passados e, principalmente, dessa nossa tão querida avó, para mim a maior e mais completa tradução da palavra Natal.
    Beijos “diretos” a todos!!!

  2. lágrimas nos olhos da minha mãe,alegria e emoção minha,e emoção da tia suely!cam,eu(sé),minha mãe,estamos admirados com a realidade e beleza da sua crônica poética.A melhor tradução do ser humano maravilhoso q foi a vó bia! Parabéns!

  3. Mais uma vez nos encanta com um de seus textos…lindo!

  4. Nossa, Cá! Que saudade da nossa vó…termino de ler este texto com lágrimas nos olhos e o peito apertado de saudade!

  5. Maravilhoso! A Vó Bia nos deixou o exemplo de vida em família! Tenho a convicção de que ela ainda está bem perto de nós, para que não esqueçamos suas lições!

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