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Carta ao Rei

Ah…! Com muita emoção, lembro-me do instante em que você anunciava que, de fato, viria. A alegria me envolveu em um terno abraço, mas também ouvi o sussurro do temor. Sim, confesso que temi. Temi, apesar de todos os preparativos para a sua chegada, que estes não fossem suficientes, que eu não pudesse recebê-lo como merecido. E, nessa disputa entre o tato e audição, me entreguei ao abraço.

O tempo caminhava em um ritmo desigual, hora corria em uma velocidade estonteante, hora se arrastava de maneira mordaz. Antecipei-me na decoração do aposento que imaginei ser seu por um bom tempo. Desenhei a faixa, apliquei papel de parede, cuidei de todos os detalhes na tentativa de aplacar a ânsia da espera.

E que ânsia! Sentia-me eternamente em rotação, era como ter escolhido viver 24 horas em um brinquedo de parque itinerante. Mas, assim como chegou, todo esse enjoo se foi. Meu corpo começava a se transformar quando então, ao ouvir uma música, senti você pela primeira vez.

Sei que mesmo transcrevendo aqui todo o dicionário, ainda assim não seria capaz de expressar em palavras àquela sensação, será que alguém conseguiria? Tenho lá minhas dúvidas. O importante é que a partir dali, comecei a sentir a vida.

Os meses se passaram sem que eu pudesse segurá-los, sem que pudesse assimilar cada nova sensação e, de sobressalto numa quente madrugada, empurrado pelo aperto em que já se encontrava e desejando conhecer o mundo, você iniciava sua chegada. Levei um certo tempo para sair de casa. Tomei um banho, arrumei meu cabelo, pois não poderia conhecer alguém tão especial toda desajeitada.

Foi em uma sala clara, rodeado por alguns pares de mãos certeiras que, enfim, conheci você e reconheci meu pequeno reizinho. Mãozinhas para cima, iluminadas pela luz cirúrgica, ávidas por espaço e inseguras diante do novo. Não, eu não chorei. Não tinha forças para isso, queria apenas registrar cada detalhe seu, gravar cada dobrinha e sentir sua doce e suave textura.

Como foi bom tê-lo em meus braços pela primeira vez. Esfomeado, aprendeu a mamar em um instante. E como mamava! Era e é simplesmente encantador ver a sua curiosidade por cada instante, cada detalhe, cada som…

Hoje, em cada canto dessa casa tem um pedacinho seu, tropeço nas cores da alegria que invadiram a sala, sem querer aciono com uma topada a musiquinha dalgum brinquedo. Entre bolhas de sabão, foge do banheiro um cheirinho de bebê. Há chupetas na estante, toalhinhas de boca no braço do sofá, babadores na mesa, cadeirinha no carro. Um peixe plástico e colorido repousa tranquilo em um carrinho estacionado no corredor e, da cozinha, o cadeirão sorridente, assiste calado ao ballet do vapor da panela de pressão que, espaçosa, submete todos os cômodos aos aromas das inseparáveis: mandioquinha, cenoura, carne e escarola.

Mas é no som do seu alegre balbuciar que eu me reencontro. Ganho vida novamente para cuidar de uma vida tão preciosa e passo a entender àquilo que não tem explicação, enquadrando-se em todo o sentido do sentir, incapaz de se encaixar em qualquer definição, em qualquer junção de letras, sílabas e palavras, expresso apenas em nossa longa troca de olhares.

Para meu amado filho, Arthur.

Camila Capps

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2 comentários em “Carta ao Rei

  1. Ficamos emocionados filha, você consegue expressar em palavras os mais profundos sentimentos.
    Mãe e pai.

  2. Camila, menina linda. Parabéns pela crônica.
    Fiquei imensamente feliz ao receber sua nova crônica que, como tudo o que você escreve, sempre me encanta.
    O milagre de ser mãe é um milagre que nos enche de sensações estranhas, muda nosso corpo, muda os aromas, muda as sensações, muda a nossa forma de ver a vida, muda a nossas vidas mas, principalmente, muda nossas almas. Depois de termos um filho, jamais voltaremos a ser as mesmas pessoas, sempre seremos pessoas melhores, pois conhecemos um amor que nunca imaginamos poder existir.
    Fiquei muito feliz ao saber da sua gravidez e do nascimento do Arthur, pois tanto você como o Guto me são muito queridos.
    Obrigada pela lembrança.
    Beijos
    Berenice.

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