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O desaparecimento de João Sebastião.

Era um sujeito magro, raquítico. Tinha uma aparência encardida. Dois olhos redondos e amendoados flutuavam vagamente nas órbitas fundas, marcadas pela saliência dos ossos da face. A barba rareava em determinados pontos para surgir em demasia em outros. Seu tom castanho avermelhado era constantemente ameaçado pelo cinza desbotado.
Não contava muitos anos, mas os anos lhe emprestavam seu peso. Andava um pouco arcado, como quem tenta contrabalancear um fardo excessivo. Porém, seus passos eram leves, sorrateiros, imperceptíveis, como poeira a dançar no colo do vento.
Entrava e saía dos lugares sem despertar atenção, sem que olhos o seguissem, sem que, se quer, notassem o movimentar da tísica figura.
As roupas brancas, amareladas pelo uso, traziam a cada dia um novo desenho, sombreado pelo sangue contido nas peças carregadas. Eram paletas, costelas, pernis. Peças quase inteiras. O cheiro o incomodava, não era algo fétido, só não sabia dizer se era mesmo forte demais, ou apenas ele, assim julgava.
O ar denso e congelante do caminhão refrigerado despertava seus ossos em um sonoro tilintar. Buscava confirmar nos olhares daqueles que o rodeavam se o som era mesmo audível a todos. Mas nenhum olhar fitava o seu, pelo contrário, o curioso ruído parecia transportá-lo a invisibilidade.
Com gosto entregava-se a essa sensação. Sentia-se livre em seu mundo único e recordava saudoso o emprego anterior, abandonado apenas por insistência da mulher em melhorar a renda familiar. Lá sim se sentia invisível por completo, acompanhado pelo silêncio da madrugada, abastecia bancas com notícias e histórias frescas.
Por mais que houvesse tentado, nos poucos anos em que frequentou a escola, era incapaz de compreender uma frase completa. Mas as letras pareciam capturá-lo, fasciná-lo, até que, dançando em meio a elas, escorregando em suas curvas, quicando em seus símbolos, produzisse seu próprio significado. Não se importava se seu entendimento era de fato o que trazia a história, mas era capaz de perder horas e horas apenas admirando as pequenas expressões de tinta.
Ao final do dia quando chegava em casa, era sempre recebido por um sonoro:
– Diacho, João! Parece um fantasma, não avisa não. Tá se escondendo pelos cantos é? Quer me matar do coração?
Deslizava então até a velha cadeira de madeira remendada, encostada em um dos três cômodos da minúscula casa. A seu lado, encontravam-se livros resgatados de lixeiras, capazes de o abstraírem em suas páginas incompreendidas. Mal podia perceber o movimentar dos dois filhos mais velhos, zombando da inércia do pai.
Os sons da mulher, vindos da cozinha iam silenciando aos poucos. Queixas isoladas, pronunciadas aos berros retratavam-no como um peso morto, sem valor, sem vida, sem nada. Gargalhadas ridicularizavam seu ato de apreciar as páginas.
– Olha lá, o Sebastião pensa que sabe ler. Essa é boa!
Apenas a figura do filho caçula, mantinha-se muda. Em apoio, abria seu caderno escolar com os primeiros rabiscos ganhando nomes e sons, para, por fim, fazer sentido em pequenas palavras.
O menino não via graça nas tentativas de leitura do pai, ao contrário, admirava-se, empenhava-se em aprender a ler e escrever, pois acreditava que só assim conseguiria decifrar o mistério das letras que tanto o intrigavam. Entendia que esta era a chave para atingi-lo, para adentrar em seu mundo.
A rotina se seguia como em todos os demais dias. E, nessa hora, mãe e os outros filhos já haviam se cansado do deboche e sentavam-se à mesa para o jantar. O pequeno ainda se colocava ao lado dele, lutava contra os roncos do estômago que insistiam em requerer um pouco de comida, fingia não ouvir os berros da mãe clamando sua presença.
João permanecia na mesma posição e o garoto sabia que assim se estenderia por horas. Vencido pela fome, seguiu com passos cautelosos até a cozinha, como se um movimento seu pudesse retirar o homem de seu transe.
Antes de abandonar a sala, virou-se para encará-lo por mais um segundo e pode notar algo novo, surpreendente.
O pai despertou, encarava-o com um sorriso largo, seus olhos se encontraram por um breve segundo, mas ao menino pareceu uma doce eternidade. Com uma piscadela, João cumprimentou o filho e voltou subitamente sua atenção às páginas manchadas.
Alegre, o pequeno rendeu-se ao prato montado pela mãe. Comia agilmente para retornar o mais breve possível à sala. Quando conseguiu, não mais encontrou Sebastião.
Na cadeira restava apenas o livro aberto ao meio. Correu estabanado até o quarto e nem sinal do pai. Alardeava a todos os cantos que ele havia desaparecido.
A mãe e os irmãos, sem entender o que sucedia, vieram em seu socorro. Ela, repetia para si mesma:
– Era só o que me faltava! Agora o desgraçado resolveu fugir!
Saíram em busca do calado João, os vizinhos aos poucos iam engrossando a passeata, chamavam, gritavam, berravam.
Apenas o garoto, havia ficado em casa sentado na velha cadeira, segurando em seu colo o livro desbotado, como se soubesse que os chamados eram em vão. Ele não podia dizer como, mas tinha certeza de que o pai finalmente conseguira entender aquele mundo que tanto o intrigara e agora à ele pertencia.
Enxugou as lágrimas na esperança de um dia poder reencontrá-lo. E, teve a certeza, de vislumbrar nas páginas sujas e rasgadas àquela piscadela.

Camila Capps

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Entre Sombras

Tenho acompanhado este gordo senhor há algum tempo. Não é algo de que me orgulho, mas enfim, é o meu trabalho.

Acho que os últimos dias não foram muito fáceis para ele, visto que jaz estático acomodado gelidamente em suas banhas que, agora, não mais apresentam a textura de macios travesseiros, mas sim de pedras brancas disformes.

Eu estava presente no início de seu dia, ou melhor dizendo, no início de seu fim. O rádio relógio despertou em uma música que mais me lembrava um lamento gutural. Assustado, ele abriu os olhos com preguiça e em um tapa desligou-o.

Levantou cambaleante rumo ao banheiro. Não pôde perceber a minha presença e eu apenas torcia para que aquela montanha não caísse, acordando a todos como o estrondo da queda.

Imagino que esse deveria ser seu ritual diário. Escovou os dentes sem capricho e lavou o rosto, na tentativa de mandar água abaixo todas as imagens que cercavam seu cotidiano: assassinos, traficantes, drogados, assaltantes… Ah! Sim…Deixe-me explicar-lhes. Ele era ou, neste ponto, ainda é delegado.

Sei que sempre fico com o trabalho sujo, pôr fim a uma existência, mas prefiro colocar de uma maneira mais eufêmica, livro uma vida da dor, do sofrimento.

A imensa figura enxugou-se às pressas, alardeada pelo som da campainha, saiu do banheiro em uma velocidade que eu não imaginava ser capaz.

Aproximei-me lentamente, tocando suas costas com desdém.Virou-se de maneira espalhafatosa e, tenho certeza, que seus olhos puderam vislumbrar-me.

Em um minuto de pavor e ansiedade, levou as mãos ao peito e correu em direção à porta. Seguiu trôpego, nem ao menos pode perceber que pisara na encomenda deixada minutos antes pelo carteiro. De joelhos, se colocou em frente à porta do vizinho. Arfando com voracidade, deu seu último suspiro enquanto caía em um baque um tanto quanto molenga, assumindo a posição em que agora se encontra, aquela mesma que já lhes descrevi.

Ocupo um lugar privilegiado no corredor, admito que ainda trago comigo um pouco de curiosidade, quero ver o que se seguirá.

Posso ouvir passos caminhando até a porta. São leves e ritmados. A tranca velha da fechadura rasga o silêncio ao ser destravada. Os raios de luz do início da manhã se intrometem a entrar pela porta que aos poucos é aberta, brindando-me com uma visão quase divina.

Delineada por uma fina camisola – seus cabelos ondulados e pretos como deveria estar a visão do gordo a essa hora, a pele alva, que para mim exala rosas – surge o semblante mais belo que já existiu.

Ela vê o calado vizinho caído em sua soleira, seus olhos correm em torno, buscando algo por todo o corredor. Por um instante parecem se encontrar com os meus, são azuis, profundos, cristalinos como a bonança do mar. Sinto-me eufórico. Ela me viu, na certa me viu! Mas assim como pararam por um segundo, seguem secos ao constatar que não há mais ninguém no corredor.

Abaixa-se suavemente. Toca o homem com os dedos, deslizando-os lentamente até aquela boca inerte, na tentativa de sentir sua respiração. Eu, escondido em meu canto, quase posso sentir a maciez daquele toque. Como queria ser eu ali, estático.

Percebo algo mórbido em seu olhar ao notar que já não há vida no corpo, o que me deixa ainda mais instigado.

Seus traços adentram a casa, deixando apenas a camisola esvoaçante em minha memória. Sei o que vai fazer. Seguirá ao telefone para discar os números da polícia e em instantes eles estarão por aqui, em minutos descobrirão o motivo da falta sem explicações de seu delegado.

Com pesar vejo que devo partir, ainda há muito trabalho por fazer…

Pois bem, vejo que me esqueci de um detalhe. Ainda não me apresentei. Você, de fato, não me conhece pessoalmente, mas garanto que mesmo assim já tem um nome para me dar. Chame-me como achar melhor. Porém, dos muitos nomes que possuo, meu predileto é Ceifador.

Carregarei aquela bela face pelos anos a fio, até o dia em que, como o delegado, seu coração não mais agüente, ou mesmo outro arranque-lhe a vida. Nesse momento, meu toque poderá finalmente apresentar-lhe minha figura.

Camila Capps

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O Boca

Quando o Boca nasceu, nasceu assim sem mais. Deu um berro tão forte que a mãe  amedrontada e sem outra graça para lhe dar, xingou-lhe logo de Bocudo.

Era Bocudo, mas não era da Silva nem da Graça e pra não ter nome tão grande, virou apenas Boca.

Cresceu abocanhado nas barras da saia da mãe e ensurdecido pelos gritos: Boca pegue! Boca faça! Boca vá! Para bem dizer a verdade, o Boca não tinha boca para nada.

Nas ruas onde morava, conheceu um amigo, o Peçonha. Este sim era a boca que o Boca não tinha. Destilava seu veneno por onde passava, não tinha papas na língua e nem rédeas o seguravam, controlava todo o morro e por afinidade promoveu o Boca a chefe da boca.

De boca em boca a notícia se espalhou. Foi passando de bem visto para bem quisto o nosso velho Boca.

O peçonha se irritou. Como poderia o Boca estar na boca do povo? Preparou uma surpresa e esperou na boca pelo Boca.

Com um sorriso de recepção ao amigo, uma bala o Boca recebeu, mas não era nem doce nem azeda, apenas fria e sorrateira.

Nos pés da boca e na boca da noite, jazia sem dizer uma só palavra, o antigo Boca.

Camila Capps


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O quarto

Uma luz amarelada cintilava nas quatro paredes daquele aposento. Os poucos móveis ganhavam sombras de figuras engraçadas que a cada minuto transformavam-se em seus significados.

Não era um local amplo, nem tampouco acolhedor. Apenas era, seria, ou estava exatamente como ele reconhecia.

Distinguia cada mancha, cada risco, cada pontinha de sangue gravada por um pernilongo esmagado.

O silêncio insistia em se acomodar ao seu lado e a cada instante tornava-se mais espaçoso, como se tentasse tomar-lhe o ar, aprisioná-lo contra a parede.

Gostava de pensar nas coisas que poderiam estar acontecendo diante da porta, mas ao se deparar com a rachadura já camuflada pelos anos na madeira antiga, só conseguia retomar as memórias que, por ela, eram culpadas.

Toda vez que se movia, na tentativa de encontrar uma posição melhor, escutava o ranger da cama, pensava em tentar algo para amenizá-lo, mas sabia que nada faria, era apenas mais uma etapa das já conhecidas por que passaria.

Uma camada fina de poeira dançava suavemente no ar, lançada pelo ajeitar do cobertor, acentuando ainda mais o pensamento que nutria por si mesmo: por que diabos não o coloquei para tomar sol?

Sabia de cor quantas viradas seriam necessárias para que seu corpo sentisse o incômodo dos “sês”, a gargalhada triunfal do medo sobre suas derrotas. E como um fogo flamejante, o estrado podre fazia sentir-se presente através da fina camada de espuma que ainda restava no colchão.

Inspirando como quem espera o último suspiro, levantava-se em um pulo espalhafatoso. Mãos ávidas ao encontro da jarra que guardava em si um pouco de água, ainda que morna e com gosto acentuado de cloro, trazia-lhe um certo alívio, parecia lavar as emoções por um segundo e transportá-lo a um vazio reconfortante, quase capaz de brindá-lo com o tão perseguido sono.

Mas eis que o leve piscar da luz, modificava as sombras e pintava o quadro da realidade bem à frente de seus olhos.

Tentava buscar abrigo aninhando-se na poltrona tão grudada à parede oposta à cama, como se mesmo o móvel tentasse uma fuga sorrateira.

Suas mãos trêmulas coçavam os olhos tingidos por feias olheiras, deslizavam sobre os ossos da face, buscavam-se sobre o abdômen, continham-se por segundos, mas bem sabia ele o que procuravam.

Ao seu lado, jogados em uma caixa de sapato estavam alguns retratos. Momentos de sua vida imortalizados por um raio de luz. Os mais antigos molduravam sorrisos cheios de confiança e vivacidade, mas ele não conseguia encontrar o ponto crucial. Quando os risos largos foram ganhando tons amarelados, quando a vivacidade cedeu lugar à dúvida, quando as outras faces que sorriam junto, tão conhecidas, companheiras, amadas, seguiram rumo ao caminho do esquecimento.

Não chorava ao encarar as fotografias, nem conseguia reconhecer-se nelas. Sabia que aquele momento seria sempre o mesmo, como em um ritual torturante onde não há fim, apenas um recomeço.

Abandonava a poltrona com o mesmo desdém que sentia pela sua falta de atitude diante do cobertor: Como não havia escondido de si mesmo fotos que lhe cutucavam a alma?

Alguns poucos livros encontravam-se em uma prateleira improvisada ao lado da poltrona. Organizava seus títulos com um critério diferenciado. À frente estavam aqueles que havia lido, porém não era capaz de recordar o final. Ao meio estavam aqueles cujos títulos tão interessantes o haviam intrigado e por isso não tinha coragem de desfazer o mistério. Ao fundo encontravam-se os que mais o faziam sentir-se mal, todos aqueles que havia começado, mas nunca terminara.

As emoções seguiam de forma idêntica pelas noites a fio. E a essa altura provocavam um arrepio em sua espinha, que parecia transportar seu corpo a uma câmara fria. Revirava as gavetas soltas e quebradas de sua cômoda, na tentativa de encontrar algo capaz de aquecê-lo, mas no fundo sabia que apenas um tecido não poderia derreter o gélido toque da frustração. Ainda assim, resgatava lá do fundo qualquer agasalho que pudesse lhe trazer um pouco de calor.

Porém naquela noite, suas mãos não lhe presentearam com apenas um moletom, mas sim uma velha blusa de lã, que trazia no cinza desbotado um “A” bordado em azul marinho. Já nem lembrava o quanto era apegado a ela ou, melhor dizendo, ao tempo a que pertencia. Quando o ato de dormir consistia em apenas cerrar os olhos e viajar em belos e psicodélicos sonhos. Quando não havia poeira em seu cobertor, nem retratos em caixas de sapato. Quando os livros eram apenas livros e nada mais. Quando a cômoda mantinha-se intacta. Quando a vida ainda existia.

Aquele “A” o incomodava, parecia dilacerar-lhe o peito enquanto guardava em si um sorriso cínico, delineado através da tênue curvatura que unia suas retas congruentes. Não conseguia compreender o motivo de tamanha amargura. Era apenas um presente que havia ganhado há anos passados.

E então, a sombra de um inseto sobrevoando a letra o fez entender. Com um misto de tristeza, solidão e repulsa, constatou que já não podia nem ao menos reconhecer o símbolo que representava a primeira letra de seu nome.

Seu corpo estático começava a ganhar movimentos torpes, a mão ainda agarrava a blusa e teve a nítida impressão de que as paredes pareciam estreitar-se. A poltrona já não tentava a fuga, agia em apoio. Todo o quarto parecia querer pôr fim ao vácuo da inexistência que o preenchia. Apenas a janela, a qual nunca dera atenção, mantinha-se austera, impassível, quase amiga, definitivamente convidativa.

Seguiu cambaleante até seu abraço e em uma fração de segundos, a brisa do fim da noite começou a acariciar-lhe levemente o rosto, tocando seu pescoço, o peito, a cintura, até envolver-lhe todo na vertigem alucinante da queda.

Um baque surdo agiu como navalha, rasgando o silêncio. Longe daquele aposento, iluminado pelos primeiros raios de sol e na tentativa de corresponder ao escárnio do “A”, um singelo sorriso pintava-se em seus lábios. Suas pálpebras encontraram-se lentamente, sem a menor pressa.

Pôde enfim adormecer.

Camila Capps